24.3.11

Partir

No Verão de 1998 passei oito semanas seguidas em Porto Covo. Fiquei amiga da juventude local, e vivi desde o ponto de vista dos locais o fluxo migratório dos veraneantes. Foram quatro os grupos diferentes a que pertenci, um por cada quinzena que passava. Era fazer amigos e ficar, ver os companheiros de praia e noitadas fazer as malas, para logo chegarem outros, novas amizades, e sempre a praia e as noitadas. Quando regressei no fim de Agosto estava esgotada de despedidas.

Quase sempre na minha vida quem partiu fui eu. Parti de Lisboa, parti de Gent, parti de Madrid, parti de Sines. A solidão da novidade nunca me fez mossa. Chegar a um sítio novo completamente sozinha é duro, foi duro, mas a expectativa das novas amizades, da nova vida, de tudo o que se vai ganhar e aprender no novo mundo compensa.

Mas a última vez que parti foi de Sines, quando fiz este blog, e contra todas as expectativas, regressei a Madrid e por cá continuo. Fui gostando, fui ficando, fui gostando mais. Demasiado tempo no mesmo sítio vicia, quanto mais meses passam mais difícil é partir. Porque quando se parte também se perde, e se deixar Lisboa não me custou, que a Lisboa regressarei sempre (ou isso gosto de pensar), o mesmo não se pode dizer de Gent, ou de Madrid, ou de qualquer terra que não a minha.

Ficar significa ver partir. Já levo uns anos disto, começa-me a pesar. Faço as contas e dos meus vinte amigos do primeiro ano restam dois em Madrid. Dos muitos outros que conheci entretanto, poucos são os que vejo numa base regular, ditada por afinidade, claro, mas também por localização, que esta metrópole gigante com o seu ritmo voraz dificulta as amizades que tenham pelo meio mais de três estações de metro.

E com cadência incerta mas segura, sempre as partidas. O Luís está na Arábia Saudita, a Paula na Escócia, o Daniel na Suiça. A Sílvia em Tarragona, o Javier em Sevilha, a Lucía em Bilbao. A Maria tem quase bilhete de regresso a Portugal, a Romina tem a Bolívia no horizonte, a Ana talvez siga para a Holanda mais cedo que tarde. São já muitos os que vi partir, mais ainda os que se seguirão. Em duas semanas vou conhecer um magote de gente que inevitavelmente se separará em Maio de 2012, no fim do MBA.

Ver partir e ficar é complicado. É penoso fazer amizades com o pressuposto de que essa pessoa eventualmente nos vai deixar, e que a nossa relação se tornará com a passagem dos anos pouco mais que uns quantos likes no Facebook. Não há like que substitua um sorriso de carne e osso.

O Verão de 1998 foi o mais bem vivido da minha vida, mas foi também o mais agridoce. Na última semana quem desejava partir era eu, que quando partimos temos mais em que pensar que o que deixámos para trás. Aguardo com tranquilidade mas com alguma tristeza o dia em que a movida de Madrid já não colmate a ausência das partidas e a solidão dos adeus. Quando esse dia chegar, partirei outra vez.

6 comentários:

Andorinha disse...

Além de estar muito bem escrito, reflete o motivo pelo qual os meus amigos que viveram em Madrid deixaram a cidade. Num dado momento deixaram de conseguir suportar as constantes chegadas e partidas de tanta gente. Sentiram que cada vez que partia alguém partia um pouco deles e partia o que os ligava à cidade. E por isso partiram também eles.
Há um ano partiu um casal amigo. Há umas semanas atrás partiu a Tuxa, rumo a PT. Em 3 anos vi partir 3 pessoas. Como também eu já parti mtas vezes, não me custou muito, só um bocadinho. Daqui a ano e meio, talvez, partirá a Luna. E se calhar daqui a 2 parto eu. Ou não. Uma coisa é certa, nunca mais vou conseguir permanecer por uma imensidão de tempo por causa dos amigos e deve-se ao facto de ter entendido que mudar de país e de cidade é um pouco como qdo mudamos de casa e deitamos fora o que não interessa, e isso é bom. Levamos connosco o fundamental.
O certo é que eu não seria capaz de viver numa cidade onde as pessoas estivessem constantemente a partir. Gabo-te a coragem. Beijinhos.

Maggie disse...

Obrigada querida! Sei que o que escrevi provavelmente só entende quem anda nesta vida de vem e vai. Como estás? :) Beijinho!

Andorinha disse...

Ando a tentar mudar de casa, ao mesmo tempo que tenho um trabalho novo (na mesma empresa) e que tenho família a precisar de assistência em Portugal, ou seja, tenho andado numa lufa-lufa que mais pareço a Petzi com a língua de fora! By the way, quero uma amiga ou um amigo pra minha boneca. Ando à procura doutro Maltese (quero a mesma raça). Sabes de algum pra adoptar? só canitos, e só malteses. Se souberes, "mailame"! ;) Boa sorte pro MBA, é uma grande responsabilidade, mas pelo que tenho visto, vale a pena! beijos

Jibóia Cega disse...

Bom texto no qual me revejo. Também já foram várias as partidas na minha vida mas há que seguir em frente.

Uma coisa boa (no meu caso) é que há aqueles amigos quepodem até partir para Marte mas estao sempre lá, em algum sitio. E quando nos reencontramos é como se tivessem passado 5 minutos.

Maggie disse...

Andorinha,
eu é só rafeirosos, nem sabia da existência dessa raça antes de te conhecer! :p Mas PT tem os canis cheios de cães de raça, se quiseres fazer uma boa acção tenta com associações, eles sacam muitos animais dos canis, seguramente procurariam-te um Maltese em apuros.
Posso é arranjar-se um gato Maltese (de nome) :p! Tb vou mudar de casa eh eh, grandes mudanças a todos os niveis. :D

Jíbóia, concordo e tb já senti isso que dizes dos 5 minutos, mas ainda assim, são relações interrompidas à força, que um dia acabam por se esfumar, mesmo que seja muito pouco a pouco.

porthfind disse...

Como te compreendo... :)