22.1.10

Há Mais Mundos

Tive o meu primeiro computador quando fiz 15 anos. No 9º ano ainda dactilografei vários trabalhos da escola na velha máquina de escrever da minha mãe, porque não gostava dos trabalhos escritos à mão. Perfeccionista como sempre fui, cada folha tinha de ficar absolutamente perfeita, o que me fazia repetir algumas páginas 3 e 4 vezes. Acho que este factor levou a minha família a antecipar o grande esforço financeiro que para nós representou comprar um computador, uns 500 contos, mais a impressora, uns 150 contos, valores que comparativamente aos padrões de vida de hoje, com actualizações do valor do dinheiro e essas técnicas todas, representam bem mais que 2500€ e 750€. A chegada do computador é algo que me lembro com contornos muito nítidos, até porque também adquirimos um modem e um serviço de internet que se pagava por horas. Ainda tenho um livrinho que explica o que é a World Wide Web e o Netscape(!). Pensar que isto foi em 1995! Dos anos 90 tenho a lembrança de uma década absolutamente moderna, mas em relação a estes temas estávamos ainda no princípio dos tempos. Bom, chegado o computador havia que pô-lo a render. E foi Português a disciplina que me deu a oportunidade ansiada. Um trabalho sobre um livro a escolher de uma lista. Posso dizer que foi uma tarefa árdua, uma batalha virtualmente sangrenta com o Word, e só não virei à pancada ao PC porque tinha sido TÃO caro que doia. O culminar da aventura deu-se quando apaguei o trabalho 90% feito, por ter seleccionado tudo e carregado enter, e depois ter fechado o ficheiro (guardando as alterações) e só bastante mais tarde me ter lembrado daquela teclazinha, o undo. Too late. Tive que fazer tudo outra vez, porque obviamente também não tinha nenhum backup do documento. Este evento caótico de acções parece hoje ridículo, mas nesse tempo em que tudo era tão novo, foram erros possíveis e até mesmo aceitáveis - embora pagos com muitas horas de sono. Assim perdi a virgindade com o mundo das novas tecnologias, mundo esse que depressa se converteu em, simplesmente, aquele em que vivemos. E como dizem, boa ou má ou péssima, a primeira vez nunca se esquece. Posso afirmar que nunca mais analisei um livro tão a fundo (nem mesmo os Lusíadas) e bem guardadinho o tenho, cheio de apontamentos e muito amarrotado. Esse livro é o "Há Mais Mundos" do José Régio. Não sei explicar porquê, mas gostei do nome.

2 comentários:

Lovely Rita disse...

"Perder a virgindade com o mundo das novas tecnologias" é do melhor que li nos últimos tempos em blogues!
Também adorei a parte em que contas como assassinaste um trabalho simplesmente seleccionando o trabalho e carregando no enter... Fartei-me de rir! Lembrou-me de uma vez, também nos primórdios da utilização "da máquina" (como dizem os nossos queridíssimos geeks de electrotecnia!) em que tinha o Insert seleccionado e só queria transformar uma frase a meio do documento; essa tarefa acabou por se revelar um autêntico pesadelo, uma vez que, conforme ía mudando o texto, o cursor ía "comendo" o resto do trabalho! E eu sem saber o que se passava; já chorava baba e ranho.

Maggie disse...

Ui, pois é, a do INSERT demorou-me anos a descobrir! Acho que já estava na Universidade! :D