11.9.07

Onde é que você estava no 11 de Setembro?

Eu era suposta passar a tarde a estudar para esse belíssimo exame de época especial de Materiais e Corrosão, no qual tive 11: 9 na parte de Materiais (a melhor nota) e 2 na parte de Corrosão (a melhor nota foi um 4).

Lembro-me que eram quase duas da tarde, estava a levantar a mesa do almoço, tinha a TV na SIC e nem sequer ia terminar de ver o Jornal da Tarde, que a 11 de Setembro ainda restam muitos vestígios da silly season e já não há paciência para ela. Quando ia da sala para a cozinha com a toalha de mesa e dois copos na mão, vejo pelo canto do olho um arranha-céus em chamas. Pouso as coisas, levanto o som, chamo a minha irmã para ver, que me ignora, claro, que o messenger é muito mais fixe.

“Que incêndio tão grande!”, foi o meu primeiro pensamento, e logo começam os jornalistas a dizer que um avião da polícia (!) tinha chocado “acidentalmente” contra uma das torres do World Trade Center. Nisto, vê-se outro avião a aparecer na imagem e depois a colisão, repetida à exaustão.

Aquele dia foi surrealista. O nosso grupo dos quatro fantásticos juntou-se como previsto, mas não foi para estudar, está claro. Em menos de nada, já se falava em Al-Qaeda e Bin Laden, dois nomes que até então me eram totalmente desconhecidos. Eu nem podia acreditar no que estava a ver, e mais, que de facto o estava a ver, em directo. E vi tudo. A colisão, o fogo, o fumo, as pessoas à janela, as pessoas a caírem, as pessoas a chorarem na rua, a primeira torre a cair, a segunda torre a cair, o pó do impacto, os destroços. Tudo, em directo. No fim, éramos unânimes: ali começava a terceira guerra mundial. A economia ia estalar. A bolsa ia crashar. O mundo como o conhecíamos ia terminar. Agora pode parecer exagerado, mas naquele dia, em que se falava em vinte mil mortos, em que vimos todo aquele horror, não nos passou pela cabeça que tamanha afronta aos EUA ficasse por menos.

Felizmente não foi o fim do mundo, mas alguma coisa muito profunda abalou a nossa tão orgulhosa e dominante sociedade ocidental. Passámos a saber, conscientemente, que não estamos seguros. Fizeram questão de nos lembrar disso, outra vez, em Madrid, e depois em Londres, e agora tornou-se “normal” que volta e meia Heathrow cancele cinquenta mil voos por suspeitas de possíveis atentados. A mim, pelo menos, esta sensação de não estar segura dá cabo de mim. Mas sou das que defendo exacerbadamente que, as nossas vidas, temos de as viver como se nada fosse. E desejar nunca ter de presenciar nada parecido ao que se aconteceu naquele dia em NY.

O mundo mudou muito e as nossas vidas também. A vida separou os quatro magníficos. O Manel trabalha na Africa do Sul, eu em Madrid, o Victor termina o seu doutoramento em Lyon e o Rodrigo creio que faz investigação no IST e teve um pequerrucho com uma polaca. Mas naquela tarde, vivemos juntos um acontecimento histórico e tivemos plena consciência disso. Tenho a certeza que o Manuel, o Victor e o Rodrigo, quando virem as notícias hoje, se lembrarão dessa tarde tão bem como eu, de como partilhamos o nosso espanto, os nossos medos e as nossas conjecturas. E quando nos perguntarem, aos quatro, onde estávamos no 11 de Setembro de 2001, a resposta será só uma.

“Eu estava em Lisboa, nos Olivais Sul, a “estudar” Materiais e Corrosão.”

3 comentários:

vicks disse...

Sendo um dos 4 fantásticos, confirmo. O previsto tinha sido resolver exames e encher as maquinas de calcular com cabulas. Acordei com o Rodrigo e o Manoel a dizerem-me: Olha, uma das twin towers está a arder! Ainda a limpar as ramelas dos olhos e de pijama, vi aparecer o segundo avião. Lembro-me de pensar que já não ia viver o suficiente para acabar o curso... The 3rd WW!

Curiosamente, no dia 11 de Setembro de 2006 estava em São Francisco a participar no congresso anual da ACS. Como ia falar e por uma questão fashion, levei uma camisa negra e gravata azul escura. Perguntaram-me: Your outfit is quite proper and respectful. You also "celebrate" 9/11 in Europe? Com a maior das hipocrisias respondi: Sure! Who doesn't? Se não fosse o gajo a lembrar-me nem me tinha apercebido...

Um refinamento, o Rodrigo esta a doutorar-se em catalise em Caen.

Bisous Maggie,

.vitor

André Bartolomeu disse...

Estou sempre ansioso que me façam esta pergunta! Lolão! Então... eu estava no Four Seasons da Quinta do Lago, onde a minha ex-namorada tinha um apartamento! Heheh! A futilidade às vezes alimenta o espírito!

Margarida disse...

Victor,
já imaginava que o Rodrigo ia fazer doutoramento... imagino-o prof no Técnico, daqui a uns 20 anos, a babar com as alunas de 20 anos (e elas com ele) e a ter casos com as que se cheguem à frente! :)

Bartolomeu,
boa vida, hein? Tu na quinta do lago na boa vida, e eu, desgraçada, a estudar para época especial!!! Há gente com sorte! :p