16.12.08

Coisas da vida

Felizmente e apesar destes já vários anos no estrangeiro, poucas foram as vezes que senti na pele atitudes de racismo. Aliás, não foram poucas, foi apenas uma. Aconteceu da segunda vez que me mudei para Madrid. Os rapazinhos que vieram cá mudar o ar condicionado fizeram um estardalhaço à porta de casa, estardalhaço esse que foi rapidamente eliminado, não sei antes eu ter o prazer de conhecer um dos meus vizinhos (somos três por andar). Tinha a porta de casa completamente aberta e comecei a ouvir alguém a reclamar violentamente, alguém esse que resultou ser um velho (muito) mal encarado. Perante a minha explicação de que os moços estavam a levar o ar condicionado antigo para baixo, e que não se preocupasse que ia ficar tudo limpinho, o tipo interrompe-me para começar a gritar que eu não tenho o direito de uso do hall, que o hall não é meu, que se não me sei comportar que agarre as minhas coisas e volte para o meu país. Foi uma situação horrível, nem sei como não lhe parti a cara, acho que foi só mesmo porque ele era mesmo velho. Ainda lhe mandei uns berros e lhe chamei racista, que pagava impostos e cumpria a lei, que não estava aqui ilegal e que se ele estava mal se mudasse. Mas enfim, quem discrimina, discrima, e não se importa muito com a pessoa que tem à frente. Uns meses mais tarde a esposa veio bater aqui à porta a pedir ajuda, que o marido não estava bem, e ainda o vi nu banhado em suor, chamei ambulância e salvei-lhe a vida, que o tipo estava em coma porque tinha tomado duas vezes a dose de insulina, ou qualquer coisa assim do estilo. Nem recebi nem um obrigado nem porra nenhuma. Ele nunca me olhou direito, nem a mim nem ao nosso outro vizinho (que também é português). Acho que lhe fazia mesmo comixão ter de viver no mesmo andar connosco, e sempre o deixou bem claro. Nunca mais lhe falei e muitas vezes fiz impressionantes malabarismos (dignos de competir com os melhores filmes cómicos) para não ter que me cruzar com ele. Hoje a subir no elevador, lá estava um papelinho, "informam-se os amigos e vizinhos que o dito cujo faleceu no dia 14 de Dezembro, bla bla bla. Assim é a vida - acaba. Agora que já não tem portugueses como vizinhos, será que é mais feliz?

3 comentários:

Júlio disse...

Acabamos todos da mesma forma, não sei porquê, algumas pessoas como esse velhote preferem viver de mal com os outros... a vida toda.

Se tiver azar... na campa ao lado ainda está um português, ou catalão que a malta de Madrid parece que não os grama muito também...

Pecola disse...

Há mesmo pessoas incríveis.. Tanta evolução no mundo e há pessoas que nascem paradas no tempo.

Olha, e ia dizer o que o Júlio já disse. ahah

Margarida disse...

Júlio,
o mais irónico é que o tipo era galego!!! Já viste, e nós sempre a pensarmos que os galegos são uns fofinhos... pois é, isto dos estigmas não funciona nem para o bem, nem para o mal!

Pecola,
Pois, é mesmo isso, nunca entendi como pode ser a mesma raça a fazer coisas tão antagónicas, ao mesmo tempo.

Beijoquinhas!