30.12.08

Mudar o Mundo

Esta história aconteceu numa tarde. Não foi numa tarde de frio, num qualquer Dezembro chuvoso. Estava calor, lembro-me. Eu teria talvez 15 anos. Eu tinha tempo, nessa altura. E por isso, se calhar, pensava menos. Nessa tarde abrasadora, lá iam, caminhando de mãos dadas, duas irmãs. Uma era uma teenager inconsciente, repleta de toda a moralizante juventude (nesses anos tudo gira à nossa volta - e nós não vemos). A outra era uma criança feliz, amada e bonita. As irmãs lá iam, descontraidamente, tendo conversas próprias de irmãs. Ali perto, num daqueles bancos de madeira tão vulgares em muitos parques e jardins de Lisboa, estava um velho. Quão velho não sei. Mas com bastantes rugas. 70 e muitos, provavelmente. E o velho tinha um saco de plástico na mão. Daqueles do Pingo Doce. Nesta história (estava-se mesmo a ver) o trajecto das duas irmãs vai obviamente passar pela beira do banco onde o velho se encontra. Quando chega o momento, o velho tira algo do seu saco de plástico e estica o braço, estendendo-o à criança. "Toma! É para ti, toma!" E a jovem, que afinal não passava de uma miuda tola e inexperiente, tem a reacção única e automática e óbvia e possível. Recusa amavelmente, puxa a irmã, apressa o passo, desvia o olhar (sem no entanto conseguir evitar o cruzar de olhos, aquele olhar, a tristeza do velho). Afinal vê-se com cada coisa. Nunca se sabe. Lisboa, anos 90. Nunca aceitar nada de estranhos, dizia a mãe, a avó, a vizinha, o piriquito. Tinha feito o certo. Tinha protegido a irmã de um estranho. Nunca se sabe. E assim sendo, as duas irmãs continuaram o seu trajecto. Do velho, não sei. Porque é que esta história não acaba aqui? Porque enquanto caminhava, ainda atordoada, sem olhar para trás, a jovem viu tudo. E teve vontade de vomitar. E tenho vontade de vomitar, só de me lembrar. Nesse rápido olhar, o que vi foi um saco com várias embalagens de marcadores Molin. O velho só queria oferecer uma caixinha de marcadores à criança que, com alegria, viu aproximar-se. E porquê, afinal? Porque esta história aconteceu no dia 1 de Junho. Dia da Criança. Eu ia com a minha irmã ao shopping comprar-lhe uma prenda. O velho era pobre, corcunda, maltrapilho, e tinha um saco cheio de marcadores Molin. Ofereceu-os. A uma criança. E a irmã não deixou. Será que alguém consegue sentir o que ainda sinto, passados tantos anos? Nunca me perdoei. Não ter parado para pensar, em vez de ter cedido à tentação do pânico fácil e desconfiança do próximo, tão típica dos meios urbanos. Afinal era um velho. Eram 3 da tarde. Era um parque cheio de gente. Não ter voltado para trás assim que me apercebi. É claro que nunca mais o vi, que nunca vou poder pedir-lhe desculpa. Assim, resta-me a lembrança. O olhar. Aquele olhar. Ele não pediu. Ele não ofendeu. Ele apenas quis dar. Talvez gostasse de crianças. Talvez gostasse do sorriso das crianças, que sorriem com tão pouco, e tão sinceramente. Talvez gostasse apenas de dar, do muito pouco que tinha. Mas agora, de que valem os talvez? Se esta história tivesse acontecido em Dezembro provavelmente tinha sido diferente. Seria Natal. Teria pensado duas vezes. Teria visto a idiotice que era a reacção que tive, antes de a ter. Nessa altura, eu já tinha lido o Principezinho. Mas ainda não tinha visto o essencial. É invisível aos olhos... E por isso aqui deixo esta história. Por muito cliché que seja, o Natal devia ser mesmo todos os dias. Termos as nossas mentes e os nossos corações um pouco mais abertos, em vez de restringirmos à época natalícia toda a mais variada gama de balelas (balelas porventura bem-intencionadas, mas ainda assim balelas, já que são rapidamente esquecidas). Seríamos mais felizes. E como somos muitos, o Mundo seria, sem dúvida, desmesuradamente melhor. Feliz Natal.
(Texto de minha autoria, publicado como artigo de opinião na revista Aetécnico, da AEIST, em Dezembro de 2002.)

3 comentários:

Saltos Altos Vermelhos disse...

Infelizmente tornamo-nos pessoas desconfiadas! Um bom ano!

Júlio disse...

Eu uma vez recusei boleia de um "estranho" num carro com matrícula francesa, e olha que morava longe de casa. Note-se que era um meio pequeno onde todos se conhecem... Mais tarde descobri que era um grande amigo dos meus pais que estava de férias, e me reconheceu porque parece que tenha traços marcadamente do meu pai... Ele até me chamou pelo nome e disse que conhecia bem os meus pais, sabia o nome deles, mas tanto levamos na cabeça para não ceder... e eu não o conhecia...

Gostei do teu texto, apesar da história não ser feliz. :)

Margarida disse...

Saltos Altos Vermelhos,
eu com a minha pequena dose de loucura acho que estou no caminho inverso de me tornar mais confiada, arriscar um pouco mais e depois logo ver. Mas enfim, nem sempre corre bem!

Júlio,
pois, nas terriolas sabe-se tudo enquanto o diabo esfrega um olho... e toda a gente é da família. Pelo menos os teus pais viram que levavas a sério as suas recomendações! :D