8.5.07

Madeleine

Quem disse que a natureza humana era “boa” errou em cheio e todos nós o sabemos. Todos gostamos de acreditar que somos essencialmente “bons”, quando na verdade sabemos que de tão imperfeitos, necessitamos de encher as nossas sociedades de moral, ética e leis. E mesmo assim é o que se vê. Dos vários e repugnantes casos relacionados com crianças que têm vindo a lume na nossa comunicação social, a notícia do momento é, sem sombra de dúvida, a do desaparecimento da menina inglesa no Algarve. Sinto-me pouco atraída pela discussão dos efeitos colaterais deste caso, mas haverá com certeza vários empresários e presidentes de câmara a deitar as mãos à cabeça. “Raios partam a merda dos bifes” pensarão eles, porque quando pensam na desgraça daquela família, a verdadeira dor que sentem é a das contas que começam já a fazer: quantos desses bifes, a massa crítica que mais alimenta o Algarve, amedontrados com o que se tem dito na imprensa inglesa, não voltarão mais aos seus aldeamentos turísticos? Estes pensamentos não os confessam nem ao espelho, mas sabem que os têm, e sabem que a sua natureza é fundamentalmente mesquinha, em vez de “boa”. O que me atrai nesta história é pura e simplesmente o drama daquela família, os acontecimentos infelizes que lhes estavam destinados, aquela coisa mórbida que me obriga a colocar-me um pouquinho na seu pele (porque é impossível sentir tudo o que sentem) e a não conseguir evitar as lágrimas de cada vez que olho os olhos azuis, repletos de fim, de Kate McAnn. Lembro-me que quando era pequena tinha por vezes pesadelos nos quais pessoas tentavam roubar a minha irmã mais nova. Eram sonhos intermináveis nos quais eu fugia, com ela ao colo, mas ficava tão cansada por correr tanto, tanto, que me apanhavam sempre, e aí, felizmente, acordava. Lembro-me que uma vez, no Verão do meu oitavo aniversário, quando ainda passávamos boa parte das férias na Costa da Caparica, perdi-me na praia. Uma senhora viu-me choramingar, perdida, e com ajuda das minhas explicações levou-me ao parque de campismo, onde estavam os meus avós. Passado uma hora apareceu o meu padrasto na tenda, eu já estava lá, almoçada e tudo, ele estava muito vermelho e gaguejou quando me viu, deu meia volta e foi buscar a minha mãe, que tinha ficado na praia. A minha mãe estava na praia, à minha procura. Tinha-se recusar a sair da praia. Não podia ir embora, porque para ela, isso seria o mesmo que abandonar-me ali. Pergunto-me como será o dia em que a mãe da Madeleine se meter num avião, sem a sua pequenita de três anos, a caminho do Reino Unido. No dia em que tiver de deixar a praia, quanto de si regressará vivo, ao país de onde partiu, alegremente, para umas férias no Algarve.

2 comentários:

RP disse...

Infelizmente não tenho muita esperança para que se resolva a situação.

A miudinha é linda. E acho que é mais uma menina que vai desaparecer no pior dos submundos que continua a ser parasita da sociedade moderna em que vivemos.

Francamente, acho difícil que a nossa polícia (ou qualquer outra) consiga apanhar-lhes o rasto.

E já cancelaram a apresentação do "Allgarve" em Londres.

Excelente texto.

Margarida disse...

É o que eu digo, há aí muita gente aborrecida, e não é pela criancinha. Ainda vieram uns tipos dizer que não se devia ter cancelado a iniciativa. Que falta de sensibilidade!