26.6.07

Eu sou a Margarida

Eu já tive esta conversa cinquenta vezes, já sei todos os passos de cor, mas não vou desistir do meu nome, esse mesmo que tanta gente já tentou adulterar com nicks e diminutivos foleiros. Eu sou Margarida, e não há nada nem ninguém que consiga demover-me de utilizar este nome, o meu adorado nome, mas demasiado grande e complicado para a maioria das pessoas. Ora, quando há espanhóis (ou ainda melhor, espanholas) à mistura, a questão é mais delicada. Cenário: eu a tratar de uma qualquer burocracia ou simplesmente algo que implique deixar o nome, contacto (tipo lavandaria). Señorita: “Tu nombre, por favor? Eu: "Ana Margarida" (dito com as vogais todas abertas para ser compreensível) Señorita: "Ana... Margarita, no?" Eu: "No, Ana Margarida, con una d en el lugar de la t." Señorita: "Aaaaaaaahhhh, vale, vale..." (Agora vem a parte chata, pois as espanholas são umas cuscas do pior, incapazes de estarem caladas dois minutos. Como a “señorita” da repartição de finanças / loja / ginásio / etc. já percebeu que eu sou estrangeira, está com as anteninhas no ar em busca de mais informação. Señorita: "...Y Margarida es nombre o es apellido?" Eu: "Es nombre, como Margarita, pero con una d." Señorita: Aaaaaaaahhhh, que guay*! ... es mucho más bonito Margarida que Margarita... a que sí, a que sí... (ela está a ver se eu digo de onde sou, mas eu nao me desfaço, então não tem mais remédio que voltar à carga) Señorita: "... y eres de donde?" Eu: "De Portugal, de Lisboa." (Digo logo tudo porque já sei que a seguir me vai perguntar de onde em Portugal). E pronto, depois apanho uma seca, tenho que estar cinco minutos a sorrir educadamente. Enquanto isto, a senhora faz comentários simpáticos “Lisboa me encanta” ou “como me gustava ir a Lisboa”, devidamente ilustrados com aventuras da excursão ou os motivos que a fizeram adiar inúmeras vezes a tão desejada viagem, ou ainda as história da amiga que tem um primo de Badajoz que se casou com uma portuguesa e têm filhos bilingues... Deeeeeeeus! Algumas ainda me perguntam pelos tais amigos “es Maria, la conoces, es de Elvas... Realmente, num país com apenas dez milhões de pessoas, quem diria que eu não conhecia a Maria de Elvas. Tsss tsss tsss.... A ignorância de muitos espanhóis é em tudo comparável à da maioria dos portugueses, mas há uma diferença clara. Os espanhóis, em geral, são mais simpáticos e extrovertidos. E em geral são mais educados, ou talvez não sejam mais educados, mas como não estão constantemente com aquela postura de “todos me devem ninguém me paga” de muitos dos meus conterrâneos, são mais suportáveis. Não sei exactamente qual é o motivo, mas apesar da seca, eu aguento, vou abanando a cabeça em sinal de concordância, sorrio e quando posso, lá me saio com um “Gracias, hasta luego!” e piro-me dali para fora, não sem antes levar de resposta um alegre “A ti, cariño, a ti!”. Não há nada a fazer. Isto, é Espanha. * Guay é uma expressão um bocado foleira que significa engraçado, giro, estupendo, etc. – ou seja, tem um sentido bom.

2 comentários:

André Bartolomeu disse...

Espectacular! Os espanhóis são muito porreiros! Também me parecem imensamente cuscos, o que para quem está de passagem é uma característica engraçada. Para quem vive permanentemente com isso, deve ser uma seca.
É como um amigo meu que se chama Pedro Fevereiro... Na altura do mês de Fevereiro, milhares de pessoas fazem a piada do: "Estamos no teu mês!!"...

filomeno2006 disse...

Lo sabroso comienza en Vilar Formoso.......