24.5.10

Encontrados

Os comentadores que a Cuatro, canal que passou o Lost em directo aqui em Espanha, puseram-se todos a dizer merda assim que acabou o directo dos episódios. Ah que afinal estiveram todos mortos este tempo todo e foi tudo um sonho. WTF? O pai do Jack é bem claro - foi tudo verdade.

Tudo aquilo aconteceu. A história na ilha é verdade, um grupo de pessoas sós (perdidas) vai ter acidentalmente a uma illha (metáfora da solidão e isolamento?) e descobrem que afinal não estão sós, têm-se e querem-se uns aos outros. O fim diz-nos que todos morrem eventualmente, como todos temos que morrer. Muitas personagens vimo-las morrer ao longo destes seis anos, não sem muitas lágrimas e saudade deste lado do ecrã. Outros sabemos que morreram à posteriori deste "The End", e ficam as questões, como sempre aconteceu com Lost. Conseguirá a Kate cumprir o seu objectivo e devolver a Clare o filho? Sawyer reencontra a filha? Poderiam Sawyer e Kate ainda ter uma relação no seu regresso ao mundo real? O avião ficou sem gasolina e morreram logo todos ali? Independentemente das respostas que não sabemos, achei absolutamente lógico e brilhante que a série acabasse com a morte de Jack, aquele olho em grande plano a fechar-se, o sorriso, a certeza de que tinha valido a pena, a certeza de que não morria em vão. Foi com ele que tudo começou, foram os seus olhos que vimos na nossa primera vez com esta série.

A realidade alternativa, ou flash-sideways, isso sim é o purgatório, e depois da tomada de consciência de alguns personagens (outros não estão prontos), vão cruzar para o céu e viver a eternidade ao lado do amor da sua vida. Este fim é sobretudo um final muito, muito cristão. Ainda que outras religiões se possam aqui rever, o final é, sem margem para dúvidas, cristão. A igreja, o caixão vazio, o Christian Shepard, Ben que não entra apesar de ser convidado (decide ficar no purgatório mais algum tempo a redimir-se dos seus pecados), isto é religião pura. Misturada com a antítese da solidão, depois de perdidos, finalmente encontrados para a eternidade.

É claro que todos queríamos mais. É claro que não andámos seis anos a ler foruns e teorias sobre a Dharma e a estátuta e os números e as mulheres que não podiam engravidar na ilha, etc etc, para ficarmos com tudo isto por responder. Mas eu prefiro a abordagem dos autores. Esta é uma série sobre pessoas perdidas na suas vidas, na sua fé, e como tudo o que vão viver naquela ilha lhes permite encontrar um sentido, uma direcção, um caminho. O resto é o resto, e para o resto haverá DVDs com extras, jogos de computadores e filmes (sim, agora estou absolutamente convencida que haverá filmes do Lost). Mas o season finale soube fechar o ciclo aberto no primeiro episódio de uma forma brilhante, comovente e inesperada, apesar de tudo.

Há muitos motivos que fazem do Lost a melhor série de todos os tempos. Por isso, os seus personagens, que tanto sofreram e penaram, que arriscaram e sacrificaram as suas vidas uns pelos outros, e ainda, que tanto nos deram ao longo destes anos, mereciam não morrer sós. Assim foi.

3 comentários:

tadeu disse...

eu preciso separar e aceitar que a teologia prevaleceu perante a ficção.
mas a série levou-nos a acreditar na ficção, na teorias e de mãos dadas a procura de redenção destes personagens como parte do mistério.
no final, só a questão religiosa prevalece.
satisfeito se separar as águas, nem tanto no geral.
filmes? não me parece, honestamente :)

enfim...talvez me junte a ben, a espera de aceitar melhor esta conclusão :)

Anónimo disse...

Gostei muito do teu texto ! concordo em maior parte... apenas fiquei insatisfeito pelo jack ter ficado com a kate ... gostava mais de um final sawyer e kate ...Mas de resto gostei . Lost foi a melhor serie de sempre !

Maggie disse...

Coitaditos, ficaram juntos mas só depois de morrerem...